1.Depressão grave

Caracteriza-se, fundamentalmente, por assolar o indivíduo com uma tristeza distinta da tristeza comum: uma tristeza visceral, o seu aspecto mais sombrio.

As raízes desta tristeza incomum absorvem a energia vital do ser humano (o ânimo), consumindo-a, tonificando-se a partir dela e provocando um estado de desequilíbrio energético-fisiológico que se manifesta no corpo do indivíduo depressivo através da fraqueza física e da modificação dos instintos vegetativos (fome, sono e sexo), comuns a qualquer animal. A partir desse momento, geralmente, o indivíduo depressivo já não dispõe da energia necessária para esboçar qualquer reação.

Tonificada pela energia vital humana, tal tristeza passa a atrair como um imã e coordenar como um eixo a própria consciência humana. Regendo o conteúdo do pensamento, dá relevo às lembranças mais sofridas (p. ex., arrependimentos) e aos sentimentos mais dolorosos (p. ex., culpa), enquanto embota todo e qualquer desejo relativo a tudo o que outrora foi motivo de satisfação e alegria. Solidão torna-se um destino inevitável.

Enfraquecido, solitário, com a consciência escravizada por esta tristeza patológica (típica da depressão), o ser humano encontra-se em uma situação extrema, e a ajuda de terceiros se faz imprescindível. Caso prossiga o andamento deste processo mórbido, o fim há de ser trágico. É preciso intervir.

Três são os mais graves desfechos naturais do progresso desta enfermidade: a catatonia, a psicose e o suicídio. A catatonia é o estado de completa paralisia física e psíquica: em um quarto escuro, deitado, sem comer, beber ou se mover, o indivíduo definhará até a morte por inanição. A psicose se dá, quando a consciência deste indivíduo, até então escravizada pela tristeza e girando em torno dela, rompe este ciclo, desvincula-se inteiramente da realidade, e passa a se encontrar assombrada por tudo o que há de mais assustador para ela própria – momento em que escuta o que ninguém ouve, sente o que ninguém sente e vê o que ninguém vê. E, por último, o suicídio, que dispensa comentários.

Depressão deriva de depressus, palavra do latim que significa baixo; porém, não se trata de o indivíduo ficar mais triste do que o seu padrão normal ou o padrão normal dos outros (isto seria uma alteração quantitativa da tristeza), mas de padecer de uma tristeza diferente (uma alteração qualitativa). A tristeza típica da depressão não é apenas um sentimento, mas um processo mórbido complexo e perigoso.

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